Chilena desaparecida na ditadura Pinochet encontrada viva na Argentina

Uma mulher declarada morta reaparece após 50 anos
Bernarda Rosalba Vera Contardo foi oficialmente considerada uma das vítimas de desaparecimento forçado durante a ditadura Pinochet no Chile. No entanto, investigações recentes confirmaram que a mulher, atualmente com 80 anos, está viva e reside na Argentina. A comprovação através de análise de DNA ordenada pelo ministério chileno para causas de direitos humanos encerrou décadas de incerteza sobre seu destino real.
O relatório pericial de DNA, conduzido sob ordem do ministro extraordinário Álvaro Mesa Latorre, determinou uma probabilidade de identificação superior a 99,9999% ao comparar o perfil genético de Vera com amostras de familiares disponibilizadas pelo Banco Genético de Familiares de Prisioneiros e Executados Políticos do Serviço Médico Legal chileno. Este resultado científico irrefutável foi confirmado pela justiça chilena na semana anterior ao comunicado oficial.
O registro oficial durante a ditadura Pinochet
Em 1973, Bernarda Vera tinha 27 anos de idade, era casada e mãe de uma filha pequena. Trabalhava como docente em uma instituição de ensino público localizada em Puerto Fuy, no Complexo Madeireiro e Florestal Panguipulli, situado na região de Los Ríos, no sul chileno. Sua atuação política era destacada nos círculos da esquerda, participando ativamente do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR) e do Movimento Camponês Revolucionário (MCR).
Conforme documentado no Relatório Rettig, publicado em 1991 pela Comissão da Verdade e Reconciliação criada durante o governo Patricio Aylwin, Vera foi incluída entre as 1.469 vítimas de desaparecimento forçado no país. O relatório oficial indicava que ela havia sido detida por militares no dia 10 de outubro de 1973, em Liquiñe, localidade na região pré-cordilheirana dos Andes. O documento afirmava que ela havia sido executada junto com outras 15 pessoas na ponte de Villarrica, sobre o rio Toltén.
O texto do Relatório Rettig descrevia: "Acredita-se que ela tenha sido executada na ponte de Villarrica sobre o rio Toltén, ao lado dos outros prisioneiros de Liquiñe. Ela permanece desaparecida desde o momento da sua detenção". Adicionalmente, mencionava que testemunhas relatavam que Vera estava escondida em algum local do Complexo Madeireiro, sendo intensamente procurada pelas autoridades militares.
A versão alternativa que desmentiu o desaparecimento
Questões sobre a veracidade dos fatos relacionados ao desaparecimento de Vera emergiram quando companheiros de militância começaram a compartilhar testemunhas diferentes. José Manuel Bravo, ex-integrante do MIR, registrou informações no Museu de Neltume indicando que um grande contingente de pessoas havia conseguido fugir dos militares em outubro de 1973 e se refugiado nas montanhas. Conforme seu relato, Bernarda Vera, cujo codinome era "Anita", integrava este grupo que escapou.
Bravo descreveu em seu livro "De Carranco a Carrán: las tomas que cambiaron la historia", lançado em 2012, que permaneceu junto a Bernarda Vera nas montanhas até dezembro de 1973, dois meses após a data informada de sua suposta prisão. Segundo fontes locais, naquele período, a mulher conseguiu sair clandestinamente do Chile rumo à Argentina com auxílio de Svante Grände, membro sueco do MIR que posteriormente se tornaria seu companheiro.
Reconstrução da vida na Argentina e Suécia
Após permanecer na Argentina por um período inicial, Vera saiu do país sul-americano em companhia de seu marido argentino e um filho recém-nascido em direção à Suécia. Naquele país europeu, recebeu seu primeiro visto e autorização de residência em 1978. Durante sua permanência sueca, Vera construiu uma nova existência e teve mais dois filhos adicionais. Em 1984, obteve a cidadania sueca oficial, completando assim sua integração àquela sociedade. No final dos anos 1990, retornou à Argentina, fixando residência na província de Buenos Aires, especificamente em um balneário denominado Miramar, localizado ao sul da capital argentina.
Descoberta pela mídia e reação familiar
A emissora de televisão Chilevisión localizou Bernarda Vera em meados do ano anterior durante investigações sobre casos de desaparecidos. Quando a equipe de reportagem bateu à sua porta, Vera conseguiu evitar as câmeras, mas seu filho Maximiliano conversou com os jornalistas fora do alcance do microfone. De acordo com a repórter Florencia Valenzuela, Bernarda afirmou que sempre imaginou que aquele momento chegaria e que alguém a encontraria, mas deixou claro seu desejo de viver em paz, sem revisitar seu passado tumultuado.
A filha que Vera deixou no Chile em 1973, quando tinha apenas cinco anos, permanecia completamente desconhecedora da situação. Agora com 58 anos, a filha não concedeu entrevista, mas transmitiu profunda incredulidade aos repórteres. Conforme afirmou Valenzuela: "Ela tem certeza de que, se sua mãe estivesse viva, teria entrado em contato com ela". A jornalista relatou à BBC News Mundo que o diálogo foi "superdifícil" porque precisava informar à filha sobre a localização da mãe, algo que ela recusava acreditar, principalmente pelo fato de não possuírem histórico familiar de contatos naquele período.
Implicações administrativas e políticas
Com a confirmação de que Bernarda Vera não é realmente uma prisioneira desaparecida, membros da oposição de direita no Chile demandaram investigações para determinar se configurou-se algum delito ou se fundos foram recebidos de má-fé. A mãe falecida de Vera recebeu em vida uma pensão de reparação estabelecida por lei para familiares de vítimas de violações de direitos humanos, e sua filha, em situação de incapacidade, também recebe benefícios relacionados.
Deputados alinhados com o presidente José Antonio Kast exigiram que o Estado recuperasse esses recursos e identificasse os responsáveis pelas irregularidades administrativas. O processo judicial sobre o desaparecimento de Vera foi instaurado em 2009 quando o Programa de Direitos Humanos apresentou uma queixa formal, sendo temporariamente arquivado em 2014 por impossibilidade de comprovar as circunstâncias do desaparecimento.
Responsabilidades governamentais em questão
A reportagem de televisão apontou que diversas autoridades do Estado tiveram conhecimento de incongruências relativas ao caso por vários anos sem atuar com a devida diligência. O ex-policial Sandro Gaete, que participava do Plano Nacional de Busca implementado pelo ex-presidente Gabriel Boric, renunciou e denunciou que autoridades possuíam evidências desde 2024 e não as encaminharam à justiça. Segundo sua denúncia, o Estado chileno contava com informações remontando a 2007.
O governo Boric informou ter enviado os antecedentes oportunamente ao ministro Álvaro Mesa, que abriu a investigação culminando na confirmação definitiva. O governo atual anunciou que solicitará investigações sumárias para determinar eventuais responsabilidades administrativas e notificará o Conselho de Defesa do Estado para ações judiciais pertinentes. O que permanece sem resposta completa são os reais motivos pelos quais Bernarda Vera escolheu não reestabelecer contato com sua filha durante todos aqueles anos na Argentina e na Suécia, deixando uma lacuna na compreensão total deste caso extraordinário que desafiou os registros históricos da ditadura Pinochet.




