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Escafandristas reimaginam Chico Buarque

Escafandristas reimaginam Chico Buarque
Fonte: g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/06/19/aos-82-anos-chico-buarque-tem-obra-remodelada-ao-feitio-sofisticado-dos-escafandristas-no-album-do-quarteto.ghtml

Quarteto reimagina o cancioneiro de Chico Buarque em álbum sofisticado

O grupo carioca Escafandristas apresenta uma releitura sofisticada da obra de Chico Buarque, compositor que completa 82 anos nesta sexta-feira, 19 de junho. Dois anos após sua formação, o quarteto lança seu primeiro trabalho discográfico pela Biscoito Fino, intitulado "Escafandristas cantam Buarque", reunindo 15 músicas do aclamado compositor em abordagens inovadoras que respeitam as melodias originais, mas transformam completamente as harmonias e estruturas rítmicas.

Uma proposta distinta do universo do cover tradicional

Sob a direção musical de Thiago Amud (voz e violão), o trabalho conta com participações de Alice Passos (voz, flauta, violão e percussão), Luísa Lacerda (voz e violão) e Renato Frazão (voz e baixo). A proposta do quarteto não se enquadra no universo convencional de releituras, uma vez que os músicos realizaram transformações substanciais nas estruturas harmônicas e rítmicas, criando um resultado que se distancia significativamente da abordagem de covers tradicionais ou materiais para karaokê.

A sofisticação na harmonização das vozes marca presença logo nas primeiras faixas do álbum. "Brejo da Cruz" (1984), gravada com a participação de Giuliano Eriston, exemplifica essa refinação ao trazer uma abordagem vocal complexa que desafia a estética pop contemporânea. Da mesma forma, "Sonhos Sonhos São" (1998), uma composição menos conhecida do repertório buarquiano, ganha novas dimensões através da organização instrumental e vocal do grupo.

Destaques técnicos e interpretativos

A abertura do álbum com "Construção" (1971) representa um momento fundamental na proposta dos Escafandristas. A reinterpretação consegue se afastar completamente do arranjo original criado pelo maestro Rogério Duprat para a gravação histórica de Chico Buarque, demonstrando a capacidade do grupo em reimaginar peças clássicas sem descaracterizá-las.

O dueto entre Thiago Amud e Luísa Lacerda em "Morro Dois Irmãos" (1989) revela uma sintonia interpretativa notável, com a voz de Amud encontrando uma afinidade particular com a dicção característica de Chico Buarque. Essa conexão se aprofunda na participação de Renato Frazão, cujo solo em "Cotidiano" (1971) destaca-se como um ponto luminoso no álbum pela capacidade de evocar a repetição monótona da vida conjugal através de arranjos que sincronizam pausas estratégicas com os versos da composição.

Citações e conexões musicais inteligentes

A estratégia de incorporar citações musicais de outras obras potencializa a experiência auditiva do projeto. Sete citações distribuídas ao longo de seis faixas funcionam como conexões inteligentes que enriquecem o discurso musical. "Futuros Amantes" (1993), que empresta seu nome do próprio quarteto em seus versos, recebe menção de "Eu Te Amo" (composição de Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim de 1980), criando um diálogo intertextual intrigante.

"Corrente" (1976) estabelece ponte com "Mambembe" (1972), enquanto "Morena dos Olhos D'Água" (1966) dialoga com a "Morena do Mar" (1972) de Dorival Caymmi, além de incorporar a ciranda "Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa" (1988), composição de Chico Buarque e Edu Lobo. Essas conexões revelam pesquisa profunda e sensibilidade musical dos intérpretes.

Participações especiais enriquecem o projeto

A presença de Ruy Guerra em "O Que Será (À Flor da Terra)" (1976) traz peso emocional considerável ao trabalho. Guerra, parceiro de Chico em "Fado Tropical" (1973), recita versos sobre arranjo majoritariamente a capella, criando momento de intimidade musical que se diferencia da sofisticação instrumental predominante no álbum.

Outro ponto singular refere-se à participação das cinco netas de Chico Buarque: Cecília, Clara, Irene, Lia e Teresa. Reunidas em estúdio pela primeira vez, as netas do compositor interpretam "As Minhas Meninas" (1987) com os Escafandristas, participação que adiciona camada afetiva à gravação através da citação de "Acalanto para Helena" (1971), canção de ninar composta por Chico para sua filha Helena, avó de Clara e Cecília.

Conclusão: moderagem sofisticada da obra buarquiana

O fechamento do álbum com "Tempo e Artista" (1993) sintetiza a proposta fundamental do projeto. Os Escafandristas conseguem remodela a obra de Chico Buarque através de uma linguagem sofisticada e contemporânea, respeitando a integridade das composições originais enquanto as transformam em algo completamente novo. Em uma época na qual a música de Chico Buarque já conquistou seu lugar na história, este trabalho reafirma a perenidade e a capacidade de reinvenção que caracteriza os maiores artistas de cada geração.

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