Mudanças climáticas e guerras ampliam risco de conflitos por alimentos

Pressões crescentes no sistema alimentar global
O risco de conflitos por alimentos está escalando em várias regiões do planeta, impulsionado pela combinação de crises climáticas e instabilidades geopolíticas. Pesquisadores alertam que a escassez alimentar, intensificada por eventos climáticos severos, pode desencadear tensões sociais e disputas por recursos naturais que antes eram considerados secundários. Esse cenário representa uma ameaça significativa à segurança internacional e à estabilidade de nações inteiras.
O fenômeno El Niño em desenvolvimento representa uma ameaça imediata para a produção agrícola mundial. Secas extremas e inundações devastadoras estão reduzindo colheitas em múltiplas regiões, enquanto conflitos como a guerra na Ucrânia interrompem cadeias globais de suprimentos. Os mercados de grãos enfrentam turbulências recorrentes, enquanto os preços de combustíveis e fertilizantes dispararam, elevando significativamente os custos operacionais para produtores rurais.
Mapeamento das regiões mais vulneráveis
O Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (Cadi), desenvolvido por especialistas do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona, apresenta uma análise detalhada sobre como as transformações climáticas remodelam a produtividade agrícola globalmente. Segundo o pesquisador Hannes Mueller, coordenador do projeto, as perdas mais severas concentram-se em regiões tropicais, particularmente em países como Camboja, Bangladesh, Burundi, Nigéria, Paraguai e El Salvador.
A situação no Norte da África merece atenção especial. Mueller destacou que os mapas de produtividade agrícola da região apresentam um quadro alarmante, com perspectivas desfavoráveis para as próximas décadas. Centenas de milhões de pessoas habitam áreas onde as colheitas atuais são inferiores aos níveis registrados há 30 anos. Projetos indicam que nos próximos 25 anos, quase metade da população mundial poderá residir em regiões onde as fazendas produzem menos alimentos do que antes.
Conflitos por transformação, não apenas escassez
Uma descoberta surpreendente da pesquisa do Cadi revela que ganhos na produtividade agrícola também podem aumentar o risco de violência. Mueller explica que a questão central transcende a simples escassez; trata-se da mudança na distribuição de recursos e oportunidades. Terras anteriormente consideradas marginais podem se tornar altamente produtivas, atraindo investidores e gerando competição pela posse e acesso.
Esse fenômeno cria novos vencedores e perdedores, tanto entre nações quanto dentro delas. O Sudão exemplifica essa complexidade: projeções indicam maior produção alimentar com o aquecimento global, mas enquanto algumas áreas ganham produtividade, outras sofrem perdas, elevando o potencial de conflitos internos. Mueller ressalta que a antecipação de mudanças futuras pode motivar apropriações de terras no presente, transformando negociações em confrontos violentos.
Impactos em sociedades estáveis e democráticas
Mudanças climáticas não poupam nem mesmo regiões economicamente desenvolvidas. Na Europa, alterações nas zonas adequadas para cultivo de uvas estão provocando deslocamentos de pequenos proprietários. Grandes produtoras de vinhos espumantes já adquirem terras em regiões montanhosas, antecipando futuras colheitas. Mueller aponta que esse processo se replica globalmente: grandes empresas agrícolas compram terras, preços aumentam e populações locais são deslocadas por transformações que ocorrerão décadas no futuro.
A pesquisa revela que transformações agrícolas têm maior probabilidade de gerar conflitos em países não democráticos. Democracias possuem instituições capazes de forçar grupos com interesses divergentes a negociar, enquanto autocracias carecem desses mecanismos. Mueller enfatiza que embora democracias possam parecer burocráticas e lentas, oferecem plataformas para negociação e resolução de conflitos, funcionando como barreiras contra violência.
Vulnerabilidade crítica do Sul da Ásia
Abdullah Fahimi, do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP), identifica o Sul da Ásia como região que demanda atenção urgente. Com aproximadamente 2 bilhões de habitantes, a região depende tanto de recursos hídricos vulneráveis quanto de mercados globais de alimentos. Importações essenciais de trigo, milho e óleo de palma originam-se de Rússia, Ucrânia, Canadá e Malásia, todas regiões potencialmente afetadas por conflitos ou instabilidades climáticas.
A agricultura local enfrenta ameaças crescentes: ondas de calor, enchentes devastadoras, declínio da produtividade agrícola e intrusão de água salgada causada pela elevação do nível do mar. As enchentes que atingiram o Nepal em agosto de 2026 exemplificam os desafios que se intensificarão. Fahimi explica que geleiras do Himalaia e Hindu Kush, responsáveis por grande parte da água utilizada na agricultura e abastecimento humano, estão derretendo aceleradamente. Enquanto curto prazo pode oferecer maior disponibilidade hídrica, o século avançará rumo a uma potencial crise humanitária afetando bilhões.
Recrutamento para grupos armados e deslegitimação governamental
As consequências da insegurança alimentar extrapolam impactos econômicos diretos. Quando pessoas enfrentam impossibilidade de sustentar suas famílias, frequentemente buscam alternativas que as tornam vulneráveis ao recrutamento por grupos terroristas. Exemplos da Nigéria e Afeganistão ilustram como a frustração alimentar se transforma em radicalização. Paralelamente, populações culpabilizam governos incapazes de mitigar impactos, questionando sua legitimidade e abrindo caminhos para conflitos violentos.
Adaptação institucional como solução estrutural
Mudanças climáticas, guerras e interrupções comerciais não conduzem automaticamente a conflitos, mas a adaptação climática não pode limitar-se a inovações agrícolas. Pessoas e sociedades requerem adaptação às transformações na distribuição de terras, água e oportunidades de emprego. A questão fundamental reside na capacidade institucional das sociedades em gerenciar essas transformações fundamentais.
Onde governos, tribunais e instituições locais conseguem auxiliar comunidades a negociar novas realidades, os impactos de choques externos são absorvidos. Onde essas instituições permanecem fracas ou ausentes, a pressão sobre sistemas alimentares inevitavelmente se transforma em pressão sobre a paz e a segurança. Investir em instituições democráticas e mecanismos de negociação representa, portanto, investimento indireto na prevenção de conflitos e na construção de futuros mais estáveis e seguros.



