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Banco Master falsificou documentos com ferramentas do Office

Banco Master falsificou documentos com ferramentas do Office
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Banco Master e a 'linha de montagem digital' de documentos falsos

A Banco Master documentos falsos representa um dos maiores esquemas de fraude investigados pela Polícia Federal nos últimos anos. A investigação revelou que colaboradores da instituição utilizaram ferramentas comuns de escritório como Microsoft Word, Excel e PDF24 para fabricar documentação em larga escala, criando a aparência de legitimidade para operações fictícias que movimentaram bilhões de reais.

O esquema funcionava como uma verdadeira linha de montagem digital, onde dados reais de clientes eram extraídos dos sistemas internos do banco e transformados em dossiês elaborados de contratos que seriam apresentados como créditos legítimos. A Polícia Federal identificou um sofisticado processo que envolvia desde a extração de informações cadastrais até a manipulação de datas e a remoção de rastros digitais capazes de revelar a origem dos documentos falsificados.

Como funcionava a extração de dados internos

O primeiro passo da operação consistia em obter dados de clientes que já haviam realizado operações legítimas no banco. Segundo a investigação, funcionários recorreram às informações armazenadas nos sistemas internos da instituição, inclusive dados relacionados ao CredCesta, um produto de crédito consignado voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.

Em 2 de julho de 2025, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou via Microsoft Teams a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, um levantamento de CPFs. Vinicius reuniu os dados em um arquivo chamado cpf_cessao.csv e executou uma consulta no banco de dados interno com o arquivo Contratos_Henrique_Dados.sql. O resultado foi exportado para a planilha Dados_cessão.xlsx e enviado por e-mail a Fabrizio e à equipe no dia 3 de julho às 16 horas e 57 minutos.

A planilha continha informações cadastrais completas dos clientes, como nome completo, CPF, data de nascimento e nome da mãe. Essas informações se tornaram a matéria-prima essencial para a montagem dos documentos falsificados. Conversas entre integrantes da área de tecnologia revelam que os próprios responsáveis identificavam problemas na base utilizada, com dados incompletos e incompatibilidades que não impossibilitaram a continuidade da operação.

A produção massiva de procurações através do Word

Com os dados já reunidos e organizados, a próxima etapa envolvia a produção em massa de procurações. Para isso, Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou a ferramenta de mala direta do Microsoft Word, um recurso comum que permite vincular um modelo de documento a uma planilha e preencher automaticamente campos diferentes para cada registro.

Allan vinculou o arquivo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, ambos armazenados na pasta de trabalho Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras. Esse procedimento permitiu gerar impressionantes 2.700 procurações em lote no dia 20 de junho de 2025. A eficiência dessa abordagem demonstra como tecnologias convencionais de escritório foram exploradas para reproduzir rapidamente a mesma estrutura documental para centenas ou milhares de pessoas, acelerando significativamente o processo de fabricação.

Códigos desenvolvidos para manipular arquivos PDF

A produção dos documentos falsos também envolveu profundamente a área de tecnologia do banco. Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. participaram do desenvolvimento de aplicações em linguagem C# registradas no repositório GitHub do Banco Master. Uma das funções criadas tinha uma finalidade muito específica: extrair de arquivos PDF apenas a segunda página, precisamente a página de assinatura dos documentos originais.

A perícia da Polícia Federal identificou um arquivo compactado chamado erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior, que continha 1.833 arquivos PDF com páginas de assinatura isoladas dos Termos de Consentimento. Essas páginas de assinatura isoladas podiam ser reaproveitadas na montagem de novos conjuntos de documentos, permitindo que assinaturas legítimas aparentemente autenticassem documentação completamente fabricada.

Assinaturas digitais que revelavam a fraude

Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva extraíram lotes de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) do sistema idtrust. Em 20 de junho, Fabrizio organizou uma força-tarefa através do Teams para assinar os documentos, separando 675 CCBs para cada um de quatro operadores: Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma.

As assinaturas foram aplicadas usando o Adobe Acrobat Reader com o certificado digital corporativo do Banco Master e o certificado individual de Allan Machado. Foi justamente nessa etapa que a perícia encontrou uma das evidências mais contundentes da manipulação. Em determinados documentos, a data escrita no corpo da CCB indicava uma data anterior, por exemplo 21 de janeiro de 2025, enquanto o registro criptográfico da assinatura digital mostrava que aquele arquivo havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14 horas, 2 minutos e 39 segundos. Essa incompatibilidade entre as datas demonstrava claramente que documentos apresentados com datas anteriores só haviam sido efetivamente assinados posteriormente.

A remoção estratégica de datas e informações

A diferença entre as datas também aparecia nos Termos de Consentimento. Para evitar que os documentos exibissem registros capazes de revelar sua origem, Allan Machado pediu a Moacir Lourenço da Silva Junior que removesse as informações de data e hora dos documentos. Essa ordem aparece em uma conversa no Teams de 20 de junho, onde Allan afirma: "e precisamos excluir a data".

A perícia identificou um exemplo concreto no Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal. O documento originalmente apresentava o registro 24/02/2023 13:05. Em uma edição realizada em 3 de julho de 2025, às 15 horas e 26 minutos, esse campo foi apagado visualmente. Porém, a alteração não eliminava todos os vestígios analisáveis pela perícia digital. O documento podia deixar de mostrar a data original na imagem, mas outros registros do arquivo e da assinatura digital permitiam reconstruir completamente a cronologia real dos eventos.

Consolidação em arquivos PDF únicos

Depois de produzidas e alteradas as diferentes peças, elas precisavam ser apresentadas como um conjunto documental coeso. Allan utilizou o PDF24 para juntar os arquivos em um único PDF por operação. A montagem reunia documentos como a CCB, a procuração e o Termo de Consentimento com a informação de data já retirada, criando dossiês que pareciam legitimar as operações.

Os arquivos finais eram organizados em pastas de rede chamadas Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras, Demanda BRB-Tirreno 299 amostras e Demanda BRB-Tirreno 119 amostras. Assim, diferentes documentos produzidos ou modificados separadamente eram transformados em um único dossiê aparentemente legítimo.

Alterações em comprovantes bancários

A tentativa de apagar rastros chegou também aos comprovantes bancários. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a alteração de comprovantes de transferências realizadas por SPB e PIX. O problema era que os documentos apresentavam informações que vinculavam as operações ao histórico original.

Allan queria retirar três elementos específicos: o evento, o número do contrato e o histórico. Entre as informações que apareciam estava a expressão "LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX". A conversa mostra que havia dificuldades em fazer isso em escala, pois enquanto procurações e outros documentos podiam ser produzidos automaticamente, a alteração gráfica dos comprovantes bancários seria impossível de realizar manualmente em 2.700 comprovantes diferentes.

O esquema triangular de R$ 7,15 bilhões

A relação entre Tirreno Consultoria, Banco Master e Banco de Brasília funcionou como um esquema de simulação e repasse de ativos ilíquidos. A Tirreno atuou como uma empresa de fachada, criada para formalizar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado com o Banco Master, que por sua vez utilizou essas carteiras sem lastro para vendê-las ao BRB.

Essa estrutura foi descrita em detalhe no relatório técnico-pericial da Polícia Federal, elaborado a partir de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master. O arquivo, intitulado "Investigações internas – Banco Master", continha 30 slides e documentava atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025 para a produção de documentos relacionados à cessão de créditos consignados ao BRB.

Preocupação com auditoria externa

As mensagens reunidas pela investigação mostram ainda que a preocupação não era apenas produzir os documentos falsos, mas explicar as inconsistências caso fossem questionadas por auditores. Em 23 de junho, Fabrizio comunicou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria da Deloitte estava cobrando informações sobre a documentação. A resposta de Alberto foi direta: "esse tem que falar que foi erro operacional na selecao".

Dois dias antes, Fabrizio e Alberto haviam discutido o envio à Deloitte de documentos referentes à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025. Essa tentativa de cobertura das irregularidades demonstra que o esquema envolvia também a preparação de narrativas para justificar possíveis inconsistências perante auditores externos.

Conclusão: Um esquema sofisticado que deixou rastros

A investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master e a falsificação de documentos revela um esquema sofisticado que explorou ferramentas tecnológicas convencionais para automatizar a produção de fraude em larga escala. Embora tenha utilizado técnicas de apagamento de datas e alteração de registros, o próprio ambiente digital preservou evidências essenciais que permitiram aos peritos reconstruir a cronologia completa da operação fraudulenta, demonstrando que nem a tecnologia mais avançada consegue eliminar completamente todos os rastros de atividades criminosas.

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